Espíritos fodendo no cemitério da cidade - Samara, a fantasminha tarada [Cap. 9]

  • Temas: EscritorAnônimo, sobrenatural, espíritos, fantasmas, cemitério, romance, suruba,
  • Publicado em: 26/10/25
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  • Autoria: EscritorAnônimo
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Private Muse

[ CAPÍTULO NOVE ]

VISITANDO O CEMITÉRIO DA CIDADE




Passou-se alguns dias e Ricardo e eu continuávamos na casa da Jéssica. O Natal e o Ano-Novo estavam chegando e o fim do meu prazo de estadia por lá também. Precisava regressar ao meu poste.

Ricardo já estava mais acostumado à vida de espírito e não reclamava mais ou tentava abrir portas. Até dei-lhe liberdade para sair um pouco durante o dia. Seria melhor para ele refrescar a mente. Só que dei permissão para ele ir apenas na esquina. Nada além disso. Eu ficava preocupada, mas ensinei a ele o que fazer em caso de problemas.

— Se acontecer alguma coisa, ou você encontrar um fantasma do mal, é só correr com tudo de volta pra aqui — falei a ele em certa ocasião.

Mas uma coisa que ele estava curtindo na vida de fantasma era poder espiar as pessoas das casas vizinhas e, principalmente, a Jéssica. Peguei ele olhando a vampira tomar banho ou trocando de roupa algumas vezes.

Ricardo tinha a mesma malícia de voyeur que eu, mas o interesse especial em ver minha amiga nua estava me incomodando de verdade. Até cheguei a dar um carão nele quando o peguei olhando a Jéssica tomar banho pela vigésima vez. Não tinha como não ficar com um ciuminho.

O safado até prometeu que pararia de fazer aquilo, mas eu sabia que ele tentaria olhar a vampira pelada quando eu não estivesse por perto.

Pela manhã, eu estava na cozinha sentada à mesa conversando com Jéssica, que estava lavando a louça, e ele apareceu fazendo um pedido muito inusitado.

— Eu quero ir no cemitério.

Fiquei surpresa com aquilo.

— Cemitério? Pra quê?

— Eu quero ver se eu tô enterrado lá.

— Mas você sabe se você foi enterrado no cemitério daqui?

Ele deu de ombros.

— Sei lá. Eu quero descobrir.

— Descobrir? Mas seus pais foram enterrados aqui também, ou alguém da sua família?

Ele pensou por alguns segundos enquanto contraía a testa. A falta de memória ainda o afligia. Embora estivesse bem menos esquecido, continuava com dificuldade de lembrar certas coisas.

— Não lembro, mas... eu quero ir lá pra ver.

— Ricardo..., é sério isso? De onde você tirou essa ideia?

Ele se aproximou e pôs as mãos nos bolsos da calça.

— Não, é que eu só queria ver onde eu tô enterrado... Meu túmulo. Só me deu uma curiosidade mesmo, só isso.

— Mas... o cemitério fica do outro lado da cidade. Lá depois do Santo Agostinho. Eu não posso ir até lá, é muito longe. Muito depois do limite que eu posso ir... E, além do mais, se você for lá, vai levar um tempão pra achar alguma coisa. Você nem sabe se tá enterrado lá mesmo.

Ele retorceu a boca descontente com minha fala.

— Beleza... Então eu vou sozinho e fico procurando até achar.

Ele parecia decidido com aquela ideia. Enquanto ficamos na casa da Jéssica por aqueles dias, percebi que Ricardo era bem teimoso. Se ele colocava uma coisa na cabeça, era difícil tirar. Então, se ele queria ir ao cemitério, ele iria uma hora ou outra de qualquer jeito.

— Tem certeza que você quer ir, Ricardo? Não é melhor mandar a Jéssica lá?

— Mas eu posso ir só. Não vai dar problema.

— Não! É melhor a Jéssica ir e ver se encontra o seu túmulo. É perigoso demais você ir sozinho sem mim.

— Mas eu quero ir — Ele franziu a testa. Estava ficando nervoso.

Balancei a cabeça insatisfeita com aquela nossa conversa. Não considerava uma visita ao cemitério como algo proveitoso.

— Tá bom... Então, deixa eu ir com você até onde eu puder. Depois você pode ir só, mas é perigoso. Não acho que vai ser legal você ficar muito tempo por lá... Já ouvi dizer que nos cemitérios tem muito fantasma maligno. Você pode se fuder indo até eles.

— Mas eu sei me virar. Eu andei por aí esses dias todos e não aconteceu nada de mais.

— É, mas no cemitério é diferente. Lá deve tá cheio de fantasma. Eles podem acabar te atacando lá. Por isso eu não tô gostando nem um pouco dessa sua ideia.

— Mas você não disse que era só correr deles se eles fossem fazer alguma coisa comigo?

— É, mas mesmo assim é perigoso.

Ele desviou o olhar, contrariado.

Jéssica, que estava ocupada lavando talheres, falou por cima do ombro:

— Ele tá querendo ir no cemitério? Se quiser, eu posso ir lá pra descobrir o túmulo dele.

Minha amiga só ouviu metade da conversa, já que ela podia ouvir apenas minha voz, mas entendeu do que se tratava.

Ricardo não gostou do que a vampira disse e elevou a voz.

— Não! Eu quero ir lá eu mesmo. Eu já andei por aí e não aconteceu nada até agora. É tranquilo... Não aguento mais ficar aqui nessa casa. Eu quero poder andar por aí numa boa, só isso. Não vai ter problema.

Olhei nos olhos dele e notei sua impaciência. Realmente, mantê-lo sob minha observação rígida por aquele período já o estava incomodando e não poderia restringir sua liberdade por muito mais tempo.

— Obrigada, Jéssica — disse eu —, mas eu vou com ele até onde eu conseguir e depois ele pode ir lá.

— Então a gente pode ir hoje? — indagou Ricardo.

— Beleza — Assenti com a cabeça. — De tarde a gente vai

Aquilo era algo arriscado, mas talvez não daria tanto problema. Talvez.



• • •



Naquele dia, o tempo estava nublado e frio. Desde a manhã até a tarde, uma espessa camada de nuvens cobria o céu. Quando passava das seis horas, chegou até a cair uma chuva fina. Parecia ser o momento ideal para ir ao cemitério.

Ainda tentei convencer Ricardo a não ir e mandar minha amiga, mas ele estava decidido.

Um pouco depois de Jéssica sair para a academia, fui até Ricardo e avisei:

— Agora é a hora da gente ir.

— Então vamo lá — disse ele.

Quando estávamos prontos para sair, repeti o plano que tracei horas antes para nossa visita ao cemitério.

— A gente vai e, quando eu não conseguir mais ir com você, eu volto pra cá e aí você vai só — Apontei para Ricardo. — Quando tiver no cemitério, fica por pouco tempo, dá uma olhada rápida e depois sai e volta pra cá. Toma muito cuidado. Se algum fantasma tentar fazer alguma coisa com você, é só fugir e voltar logo pra cá, entendeu?

— Beleza — Ricardo fez sinal positivo com o polegar.

Minha ideia era que ele fizesse apenas uma primeira visita de reconhecimento ao cemitério. Ricardo ficaria pouco tempo para ver como eram as coisas. Se era um lugar muito hostil.

Saímos da casa da Jéssica depois das seis e quarenta e tomamos o rumo para o outro lado da cidade. O céu estava coberto de nuvens e o Sol não representava risco.

Enquanto andávamos, alertei Ricardo mais uma vez.

— Presta atenção se tiver um fantasma te seguindo. É só ficar na sua e sair de lá... E se chamarem você, ignora e se afasta.

— Uhum.

Apesar de Ricardo já ter certa independência como espírito, eu temia o ataque de algum fantasma do mal. Eu já tinha passado por esse tipo de assédio sobrenatural inúmeras vezes enquanto ficava na minha esquina. O diferencial era que o Ricardo podia correr e fugir, eu não. Mas se ele seguisse o que falei, seria difícil algo de ruim acontecer.

Continuamos andando pelas ruas da periferia da cidade por um bom tempo e eu estava perto do meu limite de distância. Minha barriga estava com aquela pressãozinha chata, mas não era tão forte. Ainda dava para continuar.

Quando dobramos a esquina de uma rua de paralelepípedos vazia, Ricardo indagou:

— A gente não já tá longe demais pra você?

— Não, eu consigo ir mais.

— Tem certeza?

— Tenho.

Seguimos adiante e a pressão no meu abdômen estava aumentando aos poucos, só que ainda era suportável. Mas eu estava estranhando a distância que havíamos percorrido até então. Tinha quase certeza de que estava prestes a ultrapassar meu limite de distância, porém não estava sentindo minha barriga ser puxada tão forte.

Tudo ficou mais estranho quando estávamos passando pela calçada de uma pracinha que nunca visitei e que era perto do cemitério.

Parei e pus as mãos na barriga.

— Peraí — falei. — Tem alguma coisa errada.

— O que foi? — perguntou Ricardo.

— Eu tenho certeza que eu já passei do meu limite de distância, mas eu não tô sentindo uma pressão tão forte na barriga.

— Então é melhor você voltar — disse ele. — Eu vou só agora.

— Não... Pelo visto, eu posso ir mais longe, só não sei quanto.

Continuei andando com as mãos sobre o abdômen e, não sei como, finalmente chegamos na rua em frente ao cemitério.

Era uma via de paralelepípedos que terminava em frente ao portão do cemitério. No meio dela havia um canteiro central com um gramado e uma dezena de árvores, além dos postes que já estavam acesos. Um espírito errante passava pela rua vindo do cemitério, andando devagar e mancando. Quando passamos por ele, notei-o olhando fixamente para mim, mas felizmente ele continuou seu caminho sem nos incomodar.

Já estávamos próximos ao portão quando parei, sentei no meio-fio do canteiro e pus as mãos na barriga. Aquela pressão do caralho aumentara.

— A gente já passou muito do teu limite — disse Ricardo. — Melhor você voltar.

— Não... Ainda consigo ir mais.

Eu não sabia o porquê, mas, mesmo tendo passado muito do meu limite de distância e sentindo minhas vísceras fantasmagóricas sendo puxadas em direção à esquina, ainda conseguiria ir mais longe.

— Tem certeza? — questionou Ricardo.

— Tenho... Vamo lá.

Continuamos pela rua e, em frente aos portões do cemitério, havia uma aglomeração de espíritos. Parte deles estava conversando e os outros estavam quietos, olhando para o nada.

Ao longo da calçada que seguia o muro alto pintado de branco com detalhes em verde, havia outros poucos espíritos andando devagar para ambos os lados como se fossem sonâmbulos.

Parecia que meu estômago e as tripas estavam sendo amassadas por uma mão dentro da minha barriga, mas, surpreendentemente, ainda sentia que dava para continuar.

— Eu vou conseguir entrar — avisei. — Fica junto de mim. Não é pra sair de perto.

— Tem certeza? — indagou Ricardo, preocupado. — Acho que é melhor você voltar.

— Eu não sei como, mas dá sim. Não se preocupa.

Realmente não entendia como aquilo era possível. Meus duzentos e tantos metros foram ultrapassados há muito tempo, mas eu estava ali firme e forte. Pelo menos o céu estava todo nublado. Seria muito pior se o Sol aparecesse naquela hora.

Quando chegamos na frente do cemitério, Ricardo e eu paramos e olhamos para a dúzia de espíritos que estava ali. No letreiro na parte superior do portal onde estavam os portões lia-se: "Cemitério Santa Rita de Cássia". E abaixo havia a frase: "Que a paz do Senhor e o amor de Cristo estejam com você".

Aproveitei e dei um último alerta a Ricardo:

— É só passar por eles andando normal. Se algum ficar te encarando, continua e finge que não tá vendo nada.

— Tá bom.

Ao chegarmos na calçada, um fantasma buchudo usando só uma bermuda preta falou:

— Ei, olha esses dois que vêm aí.

Outro disse:

— Essa menina branquinha é linda.

— Ei, princesa — continuou o barrigudo. — Você é muito linda. Não quer brincar comigo não? Já tá de vestido branco. Quer casar comigo? — Ele gargalhou alto e pôs a mão sobre o pau.

Um outro fantasma magrelo de roupas esfarrapadas deu-lhe um empurrão.

— Deixa a menina em paz, desgraçado!

— Cala a boca, filho duma puta!

O fantasma pançudo partiu para cima do outro e foi seguido pelos demais. Iniciou-se uma grande confusão fantasmagórica ao lado dos portões e acenei para Ricardo com a cabeça, indicando que aquele era o momento de entrar. Ignoramos toda a algazarra e apressamos os passos.

Atravessamos os portões e passamos por dois fantasmas magrelos jogados no chão, chorando sem parar. Olhei rapidamente em volta e me impressionei. Devia ter muito mais de uma centena de fantasmas perambulando entre os túmulos. A maioria andava como se estivessem perdidos. Com olhar distante e expressão de defunto. Outros estavam conversando em pequenos grupos de três ou cinco espíritos, produzindo um burburinho que vinha de todos os lados. Ouvia-se até alguns gritos ao longe e soluços de choro.

Boa parte de todas aquelas almas penadas eram visíveis e nítidas, algumas poucas eram como vapor em forma humana. Quase invisíveis. E a paleta de cores delas se resumia em preto, branco e cinza, mas havia outras, só que dessaturadas.

Pus mais uma vez as mãos sobre o abdômen. Teria que aguentar mais um pouco aquela força me puxando.

Seguimos pela estradinha principal do cemitério, desviando de algumas almas, e passamos por um túmulo onde estava uma mulher fantasma de vestido verde acinzentado ajoelhada ao lado dele, chorando copiosamente. Do outro lado, um grupo de espíritos conversava sobre política ao redor de um mausoléu. Estavam xingando a prefeita. Mais à frente, um fantasma passou por nós carregando uma caneca de metal e pedindo esmolas.

O cemitério era como uma minicidade de pouco mais de cem metros quadrados. Ou um manicômio, já que boa parte das almas que estavam ali tinham comportamento de deficientes mentais. Andavam falando sozinhas ou ficavam paradas, olhando para o nada.

Passamos por algumas crianças brincando de esconde-esconde entre os túmulos e uma delas tinha um dos olhos pendurados para fora da órbita. Lá tinha até um vendedor. Era um sujeito de sobretudo cor de papelão que dizia estar vendendo veneno para matar passarinhos.

Começamos a observar cautelosamente os mausoléus, procurando o nome do Ricardo e evitando olhar diretamente para os fantasmas.

Adverti ele:

— Não sai de perto de mim... Vamo por aqui.

Dobramos à direita e continuamos nossa procura em meio a todos aqueles espíritos.

Em certo momento, passamos por um mausoléu todo decorado com azulejos pretos, onde estavam, ao redor dele, vários espíritos sombrios que tinham olhares assustadores. Um deles era completamente preto como uma sombra e tinha olhos vermelhos e brilhantes como brasas.

Por um momento, Ricardo olhou para ele e o "escurão" voltou sua atenção para nós.

— Não olha pra eles — sussurrei. — Esses aí são do mal. Melhor não chamar atenção deles.

Uma lição muito importante que aprendi nos meus quase vinte anos como alma penada foi que não se deve encarar aquele tipo de fantasma escuro. Eles são realmente malignos e de jeito nenhum você vai querer um deles no seu pé.

Continuamos verificando os túmulos e até encontramos um Ricardo, mas era um senhor que morrera aos setenta e quatro anos em 2009.

Quando estávamos próximos ao muro, Ricardo aproximou-se falando baixinho:

— Se a gente for olhar tudo vamo demorar até amanhã.

— É. Se você lembrasse onde teus pais tão enterrados, ia ser mais fácil.

— Então é melhor a gente ir... Eu volto outra hora e procuro melhor.

— Tá — Pus a mão sobre a barriga. — Vamo lá.

Ricardo e eu seguimos ao lado do muro em direção ao portão quando nos deparamos com uma orgia acontecendo em um grande túmulo coberto de cerâmicas verdes.

Em cima do túmulo estavam três casais transando. Um dos fantasmas estava deitado com uma mulher montada sobre ele, o outro comia a outra fantasma de quatro enquanto segurava o cabelo dela e o terceiro casal se beijava loucamente, já nus.

Alguns espíritos passavam pelo túmulo e olhavam curiosos, já outros estavam parados assistindo àquela putaria. Tinha até um com a calça abaixada batendo punheta.

Ao lado do mausoléu estava uma mulher alta e loira que só vestia uma calcinha branca. Quando passamos ao seu lado, ela chamou a atenção do Ricardo.

— Ei, rapaz bonito. Vem cá.

Ele olhou para a mulher e pareceu tentado a ir até ela.

A mulher era linda e aparentava ter uns quarenta anos. Ela tinha uma gordurinha no abdômen e seus seios eram grandes e um pouco caídos, com as auréolas rosadas. Os olhos eram grandes e verdes, muito bonitos e seus lábios eram rosados.

— Não, valeu — disse Ricardo.

A loira sorriu para ele e chamou mais uma vez com o dedo:

— Vem, amor. Vem se divertir comigo.

Felizmente, Ricardo deu as costas e saiu de perto da loira. Eu o acompanhei e sussurrei a ele:

— Não devia ter falado com ela.

Ricardo cochichou:

— Foi mal.

Continuamos andando e, quando já estávamos perto dos portões, alguém atrás de mim chamou.

— Samara.

Virei-me e um fantasma usando paletó, calça e gravata brancos estava parado próximo a mim, sorrindo e segurando um envelope. Ele tinha no bolso do paletó uma rosa vermelha como sangue.

— Você aceita essa minha carta? — O espírito ofereceu o envelope e eu fiquei com medo.

O fantasma desconhecido era alto e esguio. Pele levemente bronzeada e muito bonito. Tinha um rosto fino com o queixo pontudo. Apesar da beleza, sua cara era dicotômica. O sorriso de lábios rosados e dentes alvos e grandes me indicava amistosidade, mas seus olhos me aterrorizaram. Eram castanhos e pareciam me desejar de uma forma hedionda. Era o olhar de um assassino em série, um estuprador cruel, um pedófilo maníaco. Alguém que fizera coisas terríveis em vida.

Também senti um odor sutil que exalava dele. Me remetia a cheiro de velório, naftalina, hospital e álcool. Cheiro de morte.

Fui tomada por um medo que fez minha nuca formigar. Mas o mais assustador é que ele sabia meu nome, mas como? Nunca o vi antes.

— Valeu. Não quero carta nenhuma. Obrigada.

Quando falei isso, o homem de branco fechou a cara de um modo ameaçador.

Dei um passo para trás.

Felizmente, o espírito sinistro não fez nada. Ele guardou a carta no bolso interno do paletó, deu meia-volta e apenas atravessou o muro do cemitério.

Senti um alívio imediato.

Olhei para Ricardo e ele estava assustado. Também sentira a aura maligna daquele fantasma.

— Vamo sair logo daqui — falei.

Ricardo apenas consentiu. Com certeza não queria se deparar com mais um espírito horripilante como aquele.

Quando estávamos ao lado do portal de entrada, passamos por um grupo de fantasmas que conversavam animadamente. Entre eles estava uma moça virada de costas para mim. Ela vestia uma calça jeans comprida que arrastava no chão, estava de pés descalços, uma blusa branca de mangas curtas e cabelo castanho cacheado na altura da cintura.

Quando passei por ela, a fantasma virou na minha direção e falou comigo.

— Oi, Samara.

Olhei para ela e fiquei surpresa em ver quem era.

— Zana?

Ela sorriu.

— O que você tá fazendo aqui?

Conhecia Zana há alguns anos. Ela era uma fantasma doidinha que gostava de ficar perambulando pela cidade, correndo atrás de carros e subindo no telhado das casas. Ela aparentava ter vinte e poucos anos, era pálida, não tanto quanto eu, e tinha uma postura torta. Sua coluna era quase como um S. Os bicos dos peitos marcavam a blusa. O cabelo parecia estar sempre úmido e ela o deixava para trás. Ela até poderia ser bonita se não fossem a escoliose severa e seus olhos extremamente vesgos. Cada um para um lado.

— Vim procurar o túmulo do Ricardo — expliquei a ela, indicando meu amado com um movimento da cabeça.

Ricardo acenou para ela.

— Ui — Zana sorriu, lambendo os lábios, e seus olhos estrábicos brilharam. — Que menino bonito. Ele é seu amigo?

— É.

— Então eu ajudo vocês.

— Não precisa. A gent...

— Então vamo lá — Ela agarrou o braço do Ricardo e saiu puxando-o em direção ao meio do cemitério. — Vamo procurar.

A Zana era inconveniente mesmo, até irritante em certos momentos, mas não era má.

— Espera, Zana.

Ricardo tentou desvencilhar-se dela, mas a fantasma começou a perguntar como ele tinha morrido e pôs-se a falar da própria morte em voz alta, chamando a atenção dos outros fantasmas por perto.

Ela arruinou nossa descrição. Os espíritos em volta estavam incomodados, olhando para nós.

Aproximei-me dela e toquei seu ombro.

— Zana, tá todo mundo olhando pra gente. Fica quieta!

— Desculpa — sussurrou ela, ainda agarrada ao braço do Ricardo. — Não sabia que era segredo.

— É que a gente não tá querendo incomodar ninguém.

— Ah... — Ela fez um movimento com a cabeça. — Não é melhor vocês falarem com o velho? Ele sabe de todo mundo que tá enterrado aqui.

— Que velho?

Zana apontou uma árvore no centro do cemitério.

— Vamo lá — disse ela. — É só perguntar onde o Ricardinho tá enterrado e ele vai dizer.

Ela saiu puxando o Ricardo e eu não tive escolha além de segui-la.

A árvore no meio do cemitério era grande. Frondosa e com o tronco largo. Em volta dela havia um canteiro circular decorado com pedras e vários espíritos estavam ali reunidos. Entre eles estava um velho sentado sobre as pedras e encostado no tronco.

Zana abriu caminho entre os fantasmas.

— Ei, velho, ajuda esse meu amigo.

Ao me aproximar, notei que era um velho de aparência afro-americana, mas com a pele cinza. A cabeça tinha a parte de cima calva com cabelos e a barba desgrenhada brancos. Usava roupas surradas, cor de café com leite. Segurava um pedaço de pau que ele usava como uma bengala e tinha a tiracolo um saco amarrado por um cordão como uma bolsa. Mas o que mais chamava a atenção naquele velho eram os buracos escuros e fundos que estavam no lugar dos seus olhos.

— Pode falá que eu vou ajudá — disse o velhote.

— Samara, fala pra ele — disse Zana, ainda agarrada ao braço do Ricardo.

Aproximei-me mais do velho sem olhos.

— Será que o senhor pode ajudar a gente a achar um túmulo?

— Claro, minha fia. Posso sim... É só você dizê pra mim o nome da pessoa e quando ela morreu e eu digo pra você onde fica o túmulo.

Acenei com a cabeça para que Ricardo falasse com o velho. Ele tentou se desvencilhar do braço de Zana, mas ela não o largava.

— Meu nome é Ricardo Santos e... eu morri faz quatro meses. Foi em agosto.

O velho coçou a barba por alguns segundos e apertou os lábios grossos tentando lembrar onde estava o Ricardo.

— Não tem ninguém que morreu nessa data com teu nome aqui.

— Você tem certeza?

— Tenho sim. Meu fi, pode acreditá neu. Eu tô aqui faz mais de quarenta ano. Sei de todo mundo que tá interrado aqui. Pode cofiá.

Ricardo e eu nos entreolhamos e indaguei o velho novamente:

— Mas o senhor tem certeza absoluta?

— Tenho sim.

Fiquei um pouco brava naquele momento. Fomos ao cemitério em vão. Ricardo nunca fora enterrado lá.

— E você, minha fia? — o velho perguntou a mim. — Fala o seu nome.

— Eu não tô enterrada aqui.

Chamei Ricardo com um gesto e nos afastamos da aglomeração.

Zana nos disse:

— Vocês podem confiar no velho. Ele sabe de todo mundo que tá enterrado aqui e ele nunca erra... O Ricardinho não tá aqui não.

A pressão na minha barriga estava aumentando aos poucos. Pus as mãos sobre o abdômen e avisei:

— Preciso ir logo. Não aguento mais ficar aqui.

— Então vamo lá — disse Ricardo.

— É mesmo — falou Zana —, você não pode ficar muito longe daquela esquina, né?

— É, eu tenho que voltar pra lá agora.

— E eu vou com vocês — Zana começou a puxar Ricardo em direção ao portão do cemitério. — A gente vai conversando.

Conhecendo Zana, já sabia que ela ficaria nos enchendo por um tempo antes de ir embora.

Segui os dois pelo caminho em meio àquela multidão fantasmagórica, mas quando estava perto dos portões novamente, ouvi a voz de outra mulher me chamar.

— Samara?

Olhei para o lado e uma fantasma feiosa saía de trás de um túmulo sorrindo e apontando para mim. Era uma mulher muito magra, como uma daquelas moças que sofrem de anorexia. Braços finos e ossudos. O cabelo era desgrenhado e oleoso, como se não fosse penteado há anos. Usava um vestido cor de goiaba que estava cheio de marcas de cortes e sangue que pareciam golpes de faca. Os pés dela estavam sujos de terra. Seu rosto era horrível, com olheiras escuras e profundas. A pele era flácida e enrugada, mas dava para notar que morrera jovem.

— Samara? É você mesmo?

Ela aproximou-se andando esquisito e nós três paramos.

— Quem é você?

— Sou eu — ela sorriu, forçosamente. — Não tá lembrada de mim? Fabiana, a gente estudou junto.

Quando ela disse seu nome, senti um aperto no peito. Era a Fabi, a menina linda que era irmã da Lorena, minha amiga que estudava comigo e morava perto da minha casa. Não dava para acreditar que era ela. Estava irreconhecível.

— Fabiana...?

Fiquei paralisada. Estava em choque por ver a irmã da minha amiga naquele estado deplorável.

— Que bom te ver — Ela me abraçou suavemente e senti um cheiro de mofo vindo dela.

Também a abracei e pus as mãos em suas costas, sentindo suas costelas.

Ela segurou meus ombros e mostrou um sorriso choroso. Lágrimas começaram a sair de seus olhos.

— Fabi... O que houve com você?

O sorriso desapareceu de seu rosto e a coitada olhou para baixo, para o vestido cheio das marcas de golpes de faca.

— Foi o meu marido — Ela enxugou as lágrimas com as mãos caquéticas. — Ele me... Ele brigou comigo e acabou fazendo isso. Ele tava bravo... Ficava brigando comigo.

Quando ela disse isso, lembrei de Jéssica ter contado anos antes sobre a história do marido filho da puta que matou a mulher com mais de vinte facadas e enterrou o corpo dela no quintal da própria casa. O caso teve muita repercussão na cidade e, se não estiver enganada, chegou a ser noticiado na TV local. Mas eu não sabia que a mulher que foi morta era a Fabi.

— Mas o que você tá fazendo aqui? — perguntei. — É melhor sair desse lugar. Vem comigo.

Tentei pegar a mão dela, mas Fabi desvencilhou-se de mim.

— Não. Eu tenho que ficar aqui... Tenho que esperar meu marido... Ele vai vir me pegar.

Foi aí que percebi que Fabiana não estava totalmente consciente do que lhe ocorrera. Será que ela sabia que estava morta? Conheci vários fantasmas assim. Depois de morrerem, pareciam não perceber seu real estado. Era um tipo de loucura pós-morte.

— Fabiana, por favor, vem comigo — Estendi a mão para ela, mas a pobrezinha afastou-se de mim.

— Não, não posso — Ela fez cara feia. — Tenho que esperar meu marido... Ele vai vir me pegar. Se eu sair, ele... não vai me achar.

— Fabi, por favor.

Não adiantava chamá-la. Ela virou-se e saiu andando e falando sozinha. Infelizmente, Fabi era só mais um espírito perdido que vagava sozinha e sem propósito por aquele cemitério como os demais infelizes que estavam ali e tantos outros que conheci ao longo de quase vinte anos.

Senti um mal-estar terrível com aquele contato. Uma angústia em rever uma pessoa que mal lembrava daquele jeito horroroso.

— Legal essa sua amiga — disse Zana, sorrindo. Ela não compreendia como aquilo era triste.

Limpei uma lágrima que queria escorrer do meu olho e notei que Ricardo estava me fitando com um olhar melancólico. Ele entendeu o que acontecera com a pobre Fabi.

— Vamo embora — falei, com a voz embargada.

— Vamo lá — disse Zana, sorrindo e mexendo seus olhos estrábicos. — É... Eu quero passear com vocês. A minha amiga e o meu novo amigo.

Ricardo tentou se livrar do braço da fantasma doidinha, mas ela o puxou em direção aos portões e, antes de segui-los, ainda olhei para trás tentando rever Fabi, mas ela sumira no meio dos outros fantasmas. Infelizmente, o lugar dela era com aquelas almas penadas confusas.

Atravessamos o portão do cemitério e a aglomeração em frente a ele já havia se dispersado.

Parei na calçada e olhei para trás uma última vez. Aquele lugar era como o Inferno. Me entristecia saber que tantos espíritos vagavam em meio àqueles túmulos sem nem mesmo saber que estavam mortos.

Era uma agonia tenebrosa que nunca desejaria para meu maior inimigo.

Alcancei Zana e Ricardo e juntos partimos pela rua em frente ao cemitério enquanto o entardecer nebuloso coloria o horizonte de laranja.




Continua no próximo capítulo...


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